Coluna: Somente para garotas, provavelmente.
Com grande pesar percebo cada vez mais em minha experiência como mãe e psicóloga de crianças e adolescentes a pressão crescente de uma cultura massificadora que nivela “por baixo” e tenta emburrecer, apagar, dizimar expressões criativas e inteligentes.
Por incompetência ou simplesmente por uma cultura de achar que a responsabilidade é sempre de um outro imaginário – qualquer outro: se o apontado for a escola, a responsabilidade é dos pais, e vice-versa; se apontamos ambos, a responsabilidade é da mídia, ou da “cultura”, de quem quer que seja, desde que não seja minha ou sua. O que percebo é que ninguém quer se comprometer, arregaçar as mangas e fazer algo. Felizmente não é essa a atitude de JK Rowling.
Em toda série de livros do Harry Potter observamos uma grande preocupação de JK em não apenas contar uma história de aventura, repleta de sonhos e fantasias, mas em ajudar na formação de caráter dos leitores. Habilmente ela dá a oportunidade para que meninas aprendam que é possível crescer como Hermione (corajosas, donas-de-si, para dizer o mínimo) e meninos possam ser como Harry Potter (acreditar em suas emoções, seus sentimentos), e que qualquer um pode se sobressair por seu intelecto, independente de sua força física. Que o importante é crescer com valores sólidos como amizade, lealdade, respeito… Ela dá oportunidade para que compreendam que não é preciso diminuir ou difamar alguém para ser reconhecido, ou mudar a si mesmo para ser aceito (isso em diversos momentos da série, com as atitudes de Harry, Rony, Hermione, Luna e tantos outros que não temem ser autênticos).
Caminhando neste sentido é que me deparo com um texto de JK em seu site oficial, na área “Miscelânea”. Um texto “antigo” (2008, eu acho), ainda muito atual e que merece atenção:
“Somente para garotas, Provavelmente … (Todos os direitos reservados à JK Rowling.)
Ser magro. Provavelmente não é um assunto que você esperava ler neste site, mas minha recente viagem a Londres me fez pensar. Tudo começou no carro a caminho de Leavesden estúdios cinematográficos. Eu estava passando parte do tempo da viagem lendo uma revista que trazia uma série de fotografias em papel brilhante de uma mulher muito jovem que ou estava gravemente doente ou sofrendo de um transtorno alimentar (o que é, naturalmente, a mesma coisa); de qualquer maneira, não havia outra explicação para a forma do seu corpo. Ela pode falar que come bastante, que é terrivelmente ocupada e tem o mais rápido metabolismo do mundo até sua língua cair (oba! Mais dois “quilos” perdidos!), mas seu estômago côncavo, costelas salientes e seus braços de varetas contam uma história diferente. Esta menina precisa de ajuda, mas, o mundo sendo o que é, ao invés disso a enfia em capas de revistas. Tudo isso passou pela minha mente quando li a entrevista, então me livrei daquela coisa horrível, deixei de lado.
Queria cair dura se o assunto de meninas e magreza não ressurgisse assim que eu saisse do carro. Eu estava conversando com um dos atores e, de alguma forma ou de outra, nós entramos no assunto de uma garota que ele conhece (nenhuma das atrizes dos filmes do Harry Potter – alguém da sua vida fora dos filmes) que tinha sido apelidada de “gorda” por encantadores colegas de classe. (Eles ficariam enciumados em saber que ela conhecia o garoto em questão? Certamente não!). ’Mas’, disse o ator, honestamente perplexo, ” ela não é realmente gorda.”.
“Gorda” é normalmente o primeiro insulto que uma garota joga em outra quando quer machucá-la “, eu disse; eu conseguia lembrar que isso acontecia quando eu estava na escola, e observei também entre os adolescentes que eu costumava ensinar. No entanto, pude ver que para ele, um homem bem ajustado, isso era um comportamento totalmente bizarro, como gritar “retardado!” para Stephen Hawking.
Sua indignação para esta característica cotidiana da existência feminina me lembrou quão estranho e doente do insulto ‘gorda’ é. Quero dizer, ser “gordo” é mesmo a pior coisa que um ser humano pode ser? Ser “gordo” é pior do que ‘vingativo’, ‘invejoso’, ‘leviano’, ‘fútil’, ‘chato’ ou ‘cruel’? Não para mim, mas então, você pode retrucar, o que eu sei sobre a pressão para ser magro? Eu não tenho um trabalho em que serei julgada pela minha aparência, sendo uma escritora e ganhando a vida utilizando meu cérebro …
Fui para o Book Awards britânico naquela noite. Após a cerimônia de premiação topei com uma mulher que eu não via há quase três anos. A primeira coisa que ela me disse? “Você perdeu muito peso desde a última vez que te vi!”
‘Bem’, eu disse, um pouco perplexa, ” a última vez que me viu que eu tinha acabado de ter um bebê.”
O que eu queria dizer era: “Eu gerei meu terceiro filho e meu sexto romance desde a última vez que a vi. Nenhuma dessas coisas é mais importante, mais interessante, do que o meu tamanho?” Mas não – minha cintura parecia menor! Esqueçam a criança e o livro: finalmente, temos algo para comemorar!
Portanto, o assunto “tamanho e mulheres” foi (ha, ha) pesando em minha mente enquanto eu voei para casa em Edimburgo no dia seguinte. Uma vez no ar, abri um jornal e meus olhos caíram, imediatamente, em um artigo sobre a estrela pop Pink. Seu mais recente single, ‘Stupid Girls’, é o hino-antídoto para tudo o que eu estava pensando sobre mulheres e magreza. ‘Stupid Girls’ satiriza as modelos palito de dente empinados e falantes: aquelas celebridades cuja maior conquista é a unha polida que não lasca, cuja única aspiração é ser fotografada em uma roupa diferente nove vezes por dia, cuja única função no mundo é aparecer apoiando o comércio de bolsas caras e cães do tamanho de ratos.
Talvez tudo isso pareça engraçado, ou trivial, mas realmente não é. É sobre o que as meninas querem ser, o que elas disseram que deveriam ser, e como elas se sentem sobre quem elas são. Eu tenho duas filhas que terão que fazer o seu caminho neste mundo obcecado por magreza, e isso me preocupa, porque eu não quero que elas sejam cabeça-oca, obsessivas, clones emagrecidos; eu prefiro que eles sejam independentes, interessantes, gentis, idealistas, teimosas, originais, engraçadas – mil coisas, antes de ‘magras’. E, francamente, prefiro que não torçam o nariz se a mulher em pé ao lado delas tiver joelhos mais carnudos do que os delas. Deixem minhas meninas serem Hermiones ao invés de Pansy Parkinson. Que elas nunca sejam Stupid Girls. Fim de papo.”
O que posso dizer sobre isso? Minha filha de 6 anos fala: “Mamãe, eu sou igualzinha a Hermione”. Como sou orgulhosa por isso! E que ela se conserve assim. Na certeza de que vocês que estão lendo isso também já estão salvas de se tornarem stupid girls, a mim, só resta agradecer:
- JK, obrigada. E fim de papo.
Por Ivana Rebello – Colunista do Somos das Masmorras
Escute a música mencionada na coluna e não fique boiando no assunto:
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Ótima matéria. Realmente, a maneira como a JK criou os personagens foi brilhante. Eles não são apenas aparência. É muito mais que isso. Há essência e caráter.
O mundo seria incontáveis vezes melhor se existissem mais Hermiones, Harrys, Ronys, Lunas, Nevilles por aí…
Enfim, excelente matéria mesmo.
Thanks, Luma. Este texto PRECISAVA mesmo ser traduzido e publicado, não? E o humor da JK e seus comentários são ótimos, não é mesmo?
Foi uma das coisas mais dignas que eu já li na minha vida
Ótima matéria. Estão de parabéns.
Amei a matéria, me fez lembrar de uma frase que eu li em algum lugar a um tempo atrás “O maior talento de JK Rowling, não está como muitos pensam, na sua criatividade, e sim na facilidade que ela tem de incutir temas como preconceito,lealdade e superação de forma orgânica em suas histórias”
J.K. não revolucionou só o mundo dos livros, ela revolucionou TUDO no mundo. Twilling SUCKS
Legal da parte de vocês por um texto como esse. Como na maioria dos fãs cresci com a série e o que sou hoje é por causa dela. Tenho um pouco de personalidade dos 3 (20 porcento Harry, 30% Ron, 30% Mione, segundo um teste), acho que todo fã que cresceu com ela (série) tem. É por isso que acho que a JK PRECISA urgente ganhar o premio nobel.
Nossa, que ÓTIMA matéria! Realmente, a JK fez muito mais do que inventar o magnífico mundo de Harry Potter, ela instruiu/instrui jovens do mundo todo…
Fico contente que tenha gostado… Por favor, ajude a divulgar, quem sabe conseguimos ajudar algumas candidatas a ‘stupid girls’ a não cometerem este erro…
ate chorei… agora eu entendo porque eu fico tão chateada quando estou lendo algum livro de Harry Potter e aquela Parkinson falava mau da minha Mione, é porque eu simplesmente prefiro ela.